Um cruzeiro no fim do mundo

Texto Geraldo Silveira | Fotos Ricardo Rollo
O capitão desliga os motores, o navio para. Minutos depois, os botes saem com os passageiros para o Cabo Horn, o ponto mais austral do planeta. Mais um capítulo desta aventura na Patagônia está começando
112 vezes Cabo Horn
A primeira parte do cruzeiro, de quatro noites, de Punta Arenas a Ushuaia, na Argentina, levou apenas 54 passageiros, de 11 países. Rodrigo Fuentes, o chefe da expedição, minimizava a pequena ocupação – o navio tem capacidade para 137 passageiros – e procurava enfatizar o lado positivo. “É um novo conceito de cruzeiro, que une aventura e cultura, e vem crescendo nos últimos dez anos.”Já no segundo trecho, o número quase dobrou. Foram 92 passageiros, de 12 nações, que embarcaram em Ushuaia para fazer a rota inversa, um dia mais curta. Assim, a ocupação subiu para 70%, que tem sido a média dos últimos anos, de setembro a abril.Com dois cursos superiores de Turismo, experiência como guia de 1997 a 2005, nesse mesmo roteiro, Rodrigo é o responsável pela eficiente equipe de guias, que faz de tudo: cuida do embarque nos botes, de toda a segurança nas várias excursões, ministra palestras dentro e fora do navio, e é poliglota. No total, incluindo os guias, são 48 tripulantes. Esta foi a 112ª viagem do Via Australis, que fez sua estreia em janeiro de 2006. O público, majoritariamente europeu, é formado, em sua maioria por casais na faixa etária dos 45 aos 55 anos. “São viajados, mas calouros nesse tipo de cruzeiro. Chegam informados sobre o roteiro, conhecem a história da região e também já leram sobre o Cabo Horn e outros pontos da viagem,” conta Rodrigo.
A LUZ DO SOL entrou tímida pela fresta da cortina. Aos poucos, a cabine foi se iluminando, tirando da cama o mais renitente dorminhoco. Antes das 6 e meia, todas as cortinas se abriram para um dia que se prenunciava especial. O Via Australis já estava parado, só no embalo do mar tranquilo, muito perto da Ilha Magdalena, onde se desenrolaria o ato final de uma viagen ao fim do mundo, que começara oito dias antes, em Punta Arenas, no Chile, e terminaria também ali.
Com uma temperatura de 3 graus, céu azul sem nuvens, os 92 excitados passageiros tomaram os botes Zodiac e foram conduzidos para a ilha, paraíso dos pinguins magalhânicos. Era o último contato com uma paisagem, uma fauna, uma flora, um modo de vida que vai demorar a sair da memória.
As geladas Patagônia e Terra do Fogo, com suas centenas de canais e ilhas, que formam o ponto mais austral do globo e desafiaram, durante séculos, a perícia dos maiores navegadores, era o sonho da maioria dos passageiros. Para muitos, a viagem de uma vida.
E motivos para buscar essa terra misteriosa não faltavam, principalmente para os europeus, que vêm literalmente para o fim do mundo atrás de paisagens exclusivas, de grandes espaços e silêncios, de autoconhecimento e reflexão. Mas podem aproveitar também para comemorar o aniversário de meio século de vida, como a espanhola Angeles Novás; os 25 anos de casamento, como os sul-africanos Colman e Greta, ou ainda conhecer a parte extrema do próprio país, como o jovem casal chileno Luís e Karina, que mora em Punta Arenas.
Viajantes ávidos por novas experiências, cultos, bem informados, de várias partes do mundo, não deixaram, em momento algum, que o barco se transformasse numa Torre de Babel, dividida em guetos. Ao contrário, foi uma harmoniosa e divertida confusão de sotaques.
As mesas para as refeições tinham formações multirraciais no início, até amizades e afinidades irem se consolidando, o que provocava novos desenhos no restaurante. Duas amigas chinesas de Hong Kong, um casal francês de Antibes e outro sul-africano, que mora em Zurique, podiam ser encontrados num bate-papo alegre. De outro lado, espanhóis e chilenos trocavam experiências durante alguns dias, para depois se espalharem por outras mesas e iniciarem novas amizades. O inglês predominava, muitas vezes enferrujado, mas o esforço para se estabelecer uma conversação foi sempre admirável.
“São viajantes informados, todos ávidos por novas experiências”
O último dia, na Ilha Magdalena (acima), foi perfeito. Ao lado, a Baía Ainsworth, com suas águas e plantas exclusivas e a preguiçosa colônia de elefantes-marinhos. Abaixo, passageiro admira as belas paisagens patagônicas.
E o melhor: a cada dia, uma descoberta. Enquanto as cordilheiras nevadas acompanhavam ininterruptamente o Via Australis, oferecendo paz e beleza, as excursões em terra eram tratadas como eventos especiais, mesmo que consistissem numa simples navegação para observar uma pequena colônia de pinguins.
Foi assin na ilhota Tucker. A ansiedade para ver de perto as graciosas aves era visível nos passageiros. Mas quem imaginava aquela imensidão de animais espremidos na praia, se decepcionou. Não era o filme A Marcha das Pinguins, com certeza. Havia só 4 mil na ilha, espalhados por toda a área, em bandos que não passavam de 20. Mas o espetáculo estava garantido: eles corriam, brincavam na água, escalavam rapidamente as encostas. Enfim, mantinham a pose e o charme.
Em compensação, a visita à Ilha Horn, onde está o cabo mais famoso do mundo, arrancou suspiros. No livro de visitas do farol, parada obrigatória do passeio, a francesinha Audre Martinic anotou: “Um sonho realizado”. Ela e outras dezenas de visitantes. E olhe que não há praticamente nada a se ver na ilha, a não ser o farol, a pequena capela e o Monumento ao Albatroz, uma escultura de menos de 20 anos, que homenageia os navegadores.
Entretanto, a sensação de pisar no ponto mais extremo do Hemisfério Sul, cenário de tantos atos heroicos e tragédias, obriga a reflexão. Aquela amplidão, os ecos da história, a inesperada solidão diante de uma natureza única e opressiva atingem a todos. Mesmo aqueles que parecem mais preocupados com o melhor ângulo da foto.
Na véspera da ida ao cabo, nem mesmo a tripulação garantia o sucesso da empreitada. Tudo iria depender das condições climáticas, totalmente ingovernáveis na região. Mas tudo deu muito certo. Sem as terríveis ventanias que assolam a ilha, o capitão Oscar Sheward pôde contornar o Cabo Horn pela terceira vez na história do Via Australis, para surpresa e encanto dos viajantes, que puderam admirá-lo bem de perto das amplas janelas do navio.
O chefe da expedição, Rodrigo Fuentes, chileno de 38 anos que navega na região desde os 25, numa temporada anual de oito meses, tinha a explicação na ponta da língua: “Na Patagônia, manda a natureza; nós nos adaptamos”.
“Na Patagônia, manda a natureza; nós nos adaptamos”


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